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Os melhores profissionais e as melhores equipas têm um denominador comum: serem peritos nas competências intra e inter que perfazem as relações interpessoais entre todos os objectivos, as ferramentas e os meios. (Rui Lança)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

As competências que (não) existem no desporto

Crónica com seis anos e cada vez mais actualizada. Infelizmente...

“As competências que (não) existem no desporto”

Dizem que há uma primeira vez para tudo. Esta será a minha primeira crónica, deixando de lado a rigidez técnica dos livros. Tempos houve que também realizei as minhas primeiras críticas ao que se passava no desporto. Não sei se de uma forma mais descontextualizada, menos fundamentada ou com mais emoção.
Mas desde há algum tempo que assumo que abordar o fenómeno desportivo com a racionalidade exigida, é uma tarefa que implica alguma coragem e perspicácia, pois o desporto propriamente dito, e tudo o que o rodeia, é um assunto para a grande maioria da sociedade, de senso comum e de ‘entendedores curiosos’, o que dificulta qualquer abordagem mais técnica e rigorosa.


Não quero com isto dizer que as pessoas não possam dar a sua opinião sobre ‘isto’ ou ‘aquilo’. Nada disso! Até porque a criação de requisitos para abordar o desporto tinha outra repercussão, que seria a eliminação de uma grande quantidade de trabalhos por serem ocupados por pessoas pouco qualificadas.
A actividade desportiva tem sido utilizada com maior frequência como meio propedêutico, de estimulação ou de potenciação de uma forma de estar na sociedade que poderá ser definida como mais correcta. Através de diversos projectos utiliza-se o desporto no voluntariado e vice-versa, como forma de tornar os cidadãos mais activos, de participarem nas actividades sociais, de aprenderem a partilhar, a trabalhar em equipa ou aprender a perder e também a ganhar.

Uma simples história conta que um dia uma mãe levou o filho até Ghandi e pediu-lhe que fizesse algo para que o filho começasse a comer arroz. Ghandi, calmamente pediu que a mãe voltasse com o seu filho passado uma semana. Após uns dias os dois dirigiram-se novamente a Ghandi. Este virou-se para o filho e disse-lhe “A partir de hoje irás comer arroz”, virando-lhe depois as costas. A mãe, algo estupefacta, afirmou “Porque me mandou voltar passado uma semana para lhe dizer somente isto?”. Ghandi respondeu-lhe que há uma semana também ele não comia arroz.

Hoje acredito mais no que faço e que sou melhor também por isso. Não me basta coração ou emoção, mas ajuda. Junto a isto um conhecimento académico e prático e proporciono a hipótese de aprender mais ou acomodar-me.
O trabalho efectuado com várias populações deu-me a conhecer as potencialidades da actividade desportiva e recreativa como forma de ensinar novos e velhos, populações carenciadas e privilegiadas, do interior e do exterior, activas e sedentárias, interessadas e desinteressadas.

E olhando para o nosso país, algo vai mal nas pessoas que estão à frente de todo um fenómeno desportivo. Não acredito que estejamos a ‘8’, mas estamos sem dúvida longe, muito longe, do ‘80’.

Existem bons dirigentes desportivos, mas poucos deles em posições de decisão. Exemplos de más decisões, corrupção, dívidas, politicas desajustadas, ‘quintais’, etc. Fico com algumas dúvidas se será a imagem do país ou o contrário.
Falo muito para além de o facto de continuarmos na cauda da União Europeia no que diz respeito ao índice da prática desportiva. Claro está que tudo terá uma relação.

Mas é estranho, sem dúvida, utilizar o desporto como forma de desenvolver competências e que serão alicerces na forma como encarar desafios na vida em geral e continuarmos (de forma crescente) a ser bombardeados com exemplos como temos sido.


Torna-se difícil definir as competências que os técnicos deverão ou não possuir, pois as áreas relacionadas directa ou indirectamente com o desporto são diversas. Seria talvez mais fácil ir pelas características que um profissional não deverá possuir!


Caberá a todos decidir se queremos continuar a ser um país que vive de dirigentes desportivos (e não só) mesquinhos, que investem o seu tempo no mal dizer e na procura incessante do protagonismo, ou pretendemos algo sério, aproveitando as oportunidades criadas pelo desejo das pessoas quererem algo melhor e começarem a ficar fartas de viver neste mar de oportunidades de fazer mal e de contínua impunidade.

Sei que o desporto ajuda-nos a ser activos e empreendedores, obriga-nos a pensar em estratégias e soluções, potencia situações de sacrifício e espírito de equipa, ocupa a mente e o tempo com qualidade, mas até quando existirá a diferença abismal que temos assistido entre o dizer e o fazer?"

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